Como visto na TV Cultura.
O quarteto esteve em São Paulo em junho deste ano, em apresentação na Sala São Paulo.
Como visto na TV Cultura.
O quarteto esteve em São Paulo em junho deste ano, em apresentação na Sala São Paulo.
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— Não sou namorável, Mariano.
— E se eu lhe pedir um beijo?
— Vou demorar a vida inteira para lhe dar esse beijo.
— Eu espero, então.
Vantagem de ser pobre é saber esperar. Esperar sem dor. Porque é espera sem esperança. Mariano sofria sem pressa. Isso, ele me ensinara: o segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo em lentíssimo fogo, até que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo. Todos confirmavam: Mariano era um homem garganteador mas generoso e de recto princípio.
— Sou tão bom que até perdi o carácter — admitia ele. — A bondade me destemperou.
(Mia Couto, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra)
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Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.
Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.
Então, ela, mesma, era quem se dizia:
– Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.
A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.
Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
– Quem é?
– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.
Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.
– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.
– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?
– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
Extraído do livro Meus primeiros contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Antologia de Contistas Brasileiros vol. 3, 2001.
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abri os olhos e estava de novo olhando através da vidraça as roseiras frágeis e assustadas fustigadas pelo vento que zunia lá fora e nas venezianas de meu quarto
Luiz Vilela
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Num algodão reflito sobre o céu lilás – cuja receita nem me lembro mais, porque nunca fiz ou provei, mas levo guardada a sensação do sabor – e sobre os motivos pelos quais as pessoas vão embora. Interrompi estes pensamentos para tocar outros. Doze de março de dois mil e dez, faleceu minha avó Odete Lentini Penteado, dias antes de completar seus oitenta anos.
Falar em ir-embora não é falar em morte. A morte não é ir embora. É deixar de ser, sendo mantido, aqui e ali. Ao redor das coisas orbitam sentimentos e pessoas, sobrepostos e desalinhados, continuamente. É impossível ouvir a palavra “polenta” sem me lembrar de minha avó. Mas ela não está na polenta, está em mim. E certamente o sabor de qualquer polenta me fará lembrar dela – não pelo sabor em si, mas pela falta dele – porque nenhuma outra poderá querer ser próxima da satisfação saborosa que a dela proporcionava. Sinto o cheiro da madeira antiga dos móveis, o pó do carpete, a cera do piso de madeira, os papéis antigos no armário do quarto-do-vô, a cor das baixelas de cerâmica, de vidro, tão antigas. A cor de seus cabelos, mensalmente coloridos para ocultar o branco natural, tão próximo de sua pele, que foi a cor que predominou sobre a última vez que a vi, sobre uma cama hospitalar, em casa de meu pai. O cabelo, a pele, os olhos, a face, as paredes brancas criavam um ambiente amplamente opressor. Impressionado, não pude chorar o abraço que desejei dar, ao receber um sorriso tão diferente de todos os que já havia carinhosamente recebido. Hoje minha avó deixou de ser, sendo mantida, aqui e ali, para sempre. Hoje o que resta é o pouco que está em mim, o pouco dela que está em mim.
Ninguém imagina minhas dores.
São flores artificiais perfumando a sala,
eternamente.
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não me esqueça
.
pense em mim, mesmo se
.
como à uma flor sem perfume
.
uma estrela cadente, ágil
um raio de sol, encoberto
uma borboleta perdida, frágil
.
um ponto luminoso, no céu carmim
me escuta, te quero tanto
profundamente, um bem sem fim
.
pense como quiser
.
mas pense em mim, sempre
.
porque, eu não sei te esquecer
(W.G.Sciavartini)
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Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Chico Buarque.
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