Lembrança de Patna

Tudo era humilde em Patna:
torneiras secas,
cortinados tristes,
salas sonolentas.

Mas as flores de ervilha cheiravam com a violência
de um pássaro que dá todo o seu canto.

As ruas, modestas.
O campo, submisso:
as batatas pareciam apenas torrões mais duros.

As casas, simples,
as pessoas, tímidas.
Tudo era só bondade e pobreza.

Mas as flores de ervilha cheiravam com a violência
de uma cascata despenhada.

As flores de ervilha enchiam com o seu perfume toda a cidade,
penetravam no museu, animavam os velhos retratos,
dançavam pelas ruas, frescas e policromas,
alegravam o céu e a terra,
coroavam a tarde com seus ramos apaixonados.

As flores de ervilha mandavam mensagens
até o fundo do rio
para as afogadas, saudosas grandezas remotas de Patna.

Cecília Meireles: Poemas Escritos na Índia. 

Joni Mitchell – Love

 

Although I speak in tongues
Of men and angels
I’m just sounding brass
And tinkling cymbals without love

Love suffers long
Love is kind!
Enduring all things
Love has no evil in mind

If I had the gift of prophecy
And all the knowledge
And the faith to move the mountains
Even if I understood all of the mysteries–
If I didn’t have love
I’d be nothing

Love – never looks for love
Love’s not puffed up
Or envious
Or touchy
Because it rejoices in the truth
Not in iniquity
Love sees like a child sees

As a child I spoke as a child
I thought and I understood as a child
But when I became a woman
I put away childish things
And began to see through a glass darkly

Where, as a child, I saw it face to face
Now, I only know it in part
Fractions in me
Of faith and hope and love
And of these great three
Love’s the greatest beauty
Love
Love
Love

Se quebrar um c…

Se quebrar um copo ou xícara,
desses de estimação, favoritos,
trate de embrulhá-lo em qualquer jornal
e jogue fora,

 

e não olhe mais,
como fiz com todas as coisas tuas.

 

Assim não doerá.

Gershwin Piano Quartet toca “An American in Paris”

Como visto na TV Cultura.

O quarteto esteve em São Paulo em junho deste ano, em apresentação na Sala São Paulo.

www.gershwinpianoquartet.com

— Não sou namorável, Mariano.

E se eu lhe pedir um beijo?

Vou demorar a vida inteira para lhe dar esse beijo.

Eu espero, então.

Vantagem de ser pobre é saber esperar. Esperar sem dor. Porque é espera sem esperança. Mariano sofria sem pressa. Isso, ele me ensinara: o segredo é demorar o sofrimento, cozinhá-lo em lentíssimo fogo, até que ele se espalhe, diluto, no infinito do tempo. Todos confirmavam: Mariano era um homem garganteador mas generoso e de recto princípio.

Sou tão bom que até perdi o carácter admitia ele.  A bondade me destemperou.


(Mia Couto, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra)

Fita Verde no Cabelo, de João Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.

Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.

Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.

Então, ela, mesma, era quem se dizia:

– Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.

A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vinha-lhe correndo, em pós.

Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa.

Vinha sobejadamente.

Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:

– Quem é?

– Sou eu… – e Fita-Verde descansou a voz. – Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.

Vai, a avó, difícil, disse: – Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe. Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.

Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

– Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!

– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta… – a avó murmurou.

– Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!

– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta… – a avó suspirou.

– Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?

– É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netinha… – a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: – Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Extraído do livro Meus primeiros contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Antologia de Contistas Brasileiros vol. 3, 2001.