Doze de Março

Num algodão reflito sobre o céu  lilás – cuja receita nem me lembro mais, porque nunca fiz ou provei, mas levo guardada a sensação do sabor – e sobre os motivos pelos quais as pessoas vão embora. Interrompi estes pensamentos para tocar outros. Doze de março de dois mil e dez, faleceu minha avó Odete Lentini Penteado, dias antes de completar seus oitenta anos.

Falar em ir-embora não é falar em morte. A morte não é ir embora. É deixar de ser, sendo mantido, aqui e ali. Ao redor das coisas orbitam sentimentos e pessoas, sobrepostos e desalinhados, continuamente. É impossível ouvir a palavra “polenta” sem me lembrar de minha avó. Mas ela não está na polenta, está em mim. E certamente o sabor de qualquer polenta me fará lembrar dela – não pelo sabor em si, mas pela falta dele – porque nenhuma outra poderá querer ser próxima da satisfação saborosa que a dela proporcionava. Sinto o cheiro da madeira antiga dos móveis, o pó do carpete, a cera do piso de madeira, os papéis antigos no armário do quarto-do-vô, a cor das baixelas de cerâmica, de vidro, tão antigas. A cor de seus cabelos, mensalmente coloridos para ocultar o branco natural, tão próximo de sua pele, que foi a cor que predominou sobre a última vez que a vi, sobre uma cama hospitalar, em casa de meu pai. O cabelo, a pele, os olhos, a face, as paredes brancas criavam um ambiente amplamente opressor. Impressionado, não pude chorar o abraço que desejei dar, ao receber um sorriso tão diferente de todos os que já havia carinhosamente recebido. Hoje minha avó deixou de ser, sendo mantida, aqui e ali, para sempre. Hoje o que resta é o pouco que está em mim, o pouco dela que está em mim.

Ninguém imagina minhas dores.

São flores artificiais perfumando a sala,

eternamente.


Um pensamento sobre “Doze de Março

  1. Até dos avós que não conheci guardo traços.
    Não ve-los dá a certeza de que temos muito mais deles do que imaginamos, muito mais que na aparência, cheiros, gestos, gostos, utensílios. Os temos no coração. De uma maneira tão bonita e tão real que nos assaltam a mente.
    E é bonito nos ver assim.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s